{"id":573,"date":"2025-05-20T13:39:24","date_gmt":"2025-05-20T16:39:24","guid":{"rendered":"https:\/\/solidaritas.blog\/?p=573"},"modified":"2025-05-26T18:29:11","modified_gmt":"2025-05-26T21:29:11","slug":"pessoa-em-situacao-de-rua-ou-mendigo-quando-a-linguagem-vira-campo-de-batalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/pessoa-em-situacao-de-rua-ou-mendigo-quando-a-linguagem-vira-campo-de-batalha\/","title":{"rendered":"\"Person in a street situation\" or \"beggar\"? When language becomes a battlefield"},"content":{"rendered":"<p>Neste m&ecirc;s de maio, Antonio Prata, colunista da Folha de S. Paulo, que acompanho e admiro, trouxe um debate instigante em artigo intitulado &lsquo;<em>Pessoa em situa&ccedil;&atilde;o de mendigo<\/em>&lsquo; ((https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/antonioprata\/2025\/05\/pessoa-em-situacao-de-mendigo.shtml?pwgt=lcu1eebb7yw0bsub9395p2dso7mfcghon1zstl2fp3wxudqa&amp;utm_source=whatsapp&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=compwagift))<strong>.<\/strong> Nele, Prata manifestava seu desapre&ccedil;o absoluto pela express&atilde;o &ldquo;Pessoa em Situa&ccedil;&atilde;o de Rua&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua opini&atilde;o, tal express&atilde;o, por ele &ldquo;odiada&rdquo;, representaria uma &ldquo;aberra&ccedil;&atilde;o do politicamente correto&rdquo;. A seu ver, &ldquo;a frase&rdquo; (sic) em sua &ldquo;assepsia sem&acirc;ntica&rdquo;, propagaria uma mentira: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">&ldquo;&Eacute; como se o sujeito que t&aacute; dormindo na cal&ccedil;ada, em cima de uma caixa de papel&atilde;o aberta, coberto com aquela manta de proteger m&oacute;vel em mudan&ccedil;a, com uma garrafa (vazia) de cacha&ccedil;a ao lado, sem tomar banho h&aacute; semanas, sem la&ccedil;os sociais, familiares, talvez viciado em crack, enfim, &eacute; como se essa pessoa ferrada estivesse numa &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o&rdquo; moment&acirc;nea que logo, logo, vai ser resolvida&rdquo;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>E prossegue em seu petardo verbal sem se acanhar para, a seu ver, dar o nome correto &agrave;quela pessoa em tal condi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mendigo &eacute; o nome dessa pessoa.(&hellip;) Qualquer corrup&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica para maquiar sua condi&ccedil;&atilde;o serve s&oacute; para amenizar nossa culpa. &Eacute; calhorda. &Eacute; covarde. Em vez de tentar salvar a pessoa da degrada&ccedil;&atilde;o total, fingimos que ela n&atilde;o est&aacute; assim t&atilde;o mal. &ldquo;S&oacute; uma situa&ccedil;&atilde;o.&rdquo;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em ess&ecirc;ncia, este seria o argumento de seu primeiro artigo sobre o tema, permeado por muita ironia e deboche, com a verve que o caracteriza e que aprendemos a gostar. <\/p>\n\n\n\n<p>Confesso que nunca tinha pensado nesta quest&atilde;o sem&acirc;ntica. Sempre achei a palavra &ldquo;mendigo&rdquo; extremamente depreciativa, muito embora, concordando com Prata, seria a que talvez melhor definisse a condi&ccedil;&atilde;o daquela pessoa. <\/p>\n\n\n\n<p>Passados cerca de 15 dias, Prata volta &agrave;s p&aacute;ginas da Folha com artigo intitulado <em>Resposta aberta &agrave; carta aberta<\/em> ((https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/antonioprata\/2025\/05\/resposta-aberta-a-carta-aberta.shtml?pwgt=lcu1eedqqrk4o5l3st6e4m7xvg5ffjplm3jyduyc91jd7y82&amp;utm_source=whatsapp&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=compwagift)). Nele, relata que, seu amigo pessoal, o ex-senador e atual deputado estadual Eduardo Suplicy, teria repostado em sua conta de Instagram uma mensagem do F&oacute;rum da Cidade de S&atilde;o Paulo em Defesa da Popula&ccedil;&atilde;o Em Situa&ccedil;&atilde;o de Rua. &Acirc;nimos serenados, Prata elogia o tom cort&ecirc;s do comunicado, &ldquo;cujo objetivo era expor argumentos, n&atilde;o partir pro chute no saco e dedo no olho que s&atilde;o a norma, hoje, nas redes sociais&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua argumenta&ccedil;&atilde;o no post do Instagram, o forum destaca que &ldquo;r&oacute;tulos como &lsquo;mendigo&rsquo; e &lsquo;pedinte&rsquo; remetem &agrave; id&eacute;ia de pessoas associadas &agrave; mendic&acirc;ncia, &agrave; vadiagem e &agrave; delinqu&ecirc;ncia , e que n&atilde;o seriam merecedoras de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas adequadas&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>E prossegue o forum:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">&ldquo;O termo &lsquo;situa&ccedil;&atilde;o de rua&rsquo; &eacute; essencial para o tratamento digno dessas pessoas, que n&atilde;o est&atilde;o fadadas a ser &lsquo;mendigo&rsquo;, como o estigma da palavra imp&otilde;e&rdquo;. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>E conclui a nota do forum:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">&ldquo;Falar em pessoas que est&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua &eacute; defender a cidadania e os direitos que est&atilde;o garantidos na Constitui&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em sua resposta no segundo artigo, Prata reconhece a possibilidade de se mudar frases e terminologias para reduzir o estigma que certas palavras podem imprimir a este ou aquele indiv&iacute;duo, mas receia que estas novas express&otilde;es aumentem o fosso j&aacute; abissal entre a esquerda e a direita. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-medium-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O problema &eacute; que este rebatismo do mundo vai criando uma esp&eacute;cie de pato&aacute; [dialeto] s&oacute; falado pela esquerda, um dialeto que nos afasta da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, justamente aquelas pessoas que temos que conquistar pra n&atilde;o cairmos novamente nas m&atilde;os da extrema direita.<br><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com a oportunidade ensejada pela carta aberta do Forum a Antonio Prata, criou-se a possibilidade de este externar com mais clareza seu ponto de vista sobre a quest&atilde;o. Na verdade, nota-se que seu alvo central &eacute; a hipertrofia do politicamente correto na vida pol&iacute;tica nacional.  <\/p>\n\n\n\n<p>Neste debate, acho que ambos est&atilde;o certos. &Eacute; leg&iacute;tima a preocupa&ccedil;&atilde;o de Prata em agravar-se a polariza&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica com a ado&ccedil;&atilde;o crescente do politicamente correto em nossas vidas cotidianas. Mas, por outro lado, &eacute; pertinente a preocupa&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum da Cidade de S&atilde;o Paulo em Defesa da Popula&ccedil;&atilde;o Em Situa&ccedil;&atilde;o de Rua em mudar o vocabul&aacute;rio para reinscrever estas pessoas j&aacute; de todo vulnerabilizadas no &acirc;mbito dos direitos constitucionais. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Richard Rorty e a cr&iacute;tica ao politicamente correto<\/h2>\n\n\n\n<p>Vejo afinidades entre a argumenta&ccedil;&atilde;o de Prata e o pensamento do fil&oacute;sofo norte-americano Richard Rorty, especialmente o que expressou em <em><strong>Achieving our country: Leftist thought in twentieth-century America<\/strong><\/em> ((https:\/\/www.amazon.com.br\/Achieving-Our-Country-Leftist-Twentieth-Century\/dp\/0674003128\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=33OD3Z1OYZPGR&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.PnErUpks5e5RK_6BC2WDtnn4Q0kFXptT9s9tnlkJK3UXx0TJhWfhHrXGCtevRRqYfnRhCGQ6pZk8zHIGybgKwiffHj-HRxpS0oMpuZDCfxI.X1jOmLtDhvpeMZLYGchGoSzUUHxySvr_5tfsj62xwVg&amp;dib_tag=se&amp;keywords=achieving+our+country&amp;qid=1747759080&amp;sprefix=achieving+our+country%2Caps%2C249&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9)) (1998).<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rorty, os intelectuais da esquerda acad&ecirc;mica dos EUA, a partir dos anos 1960, abandonaram a pol&iacute;tica de transforma&ccedil;&atilde;o institucional concreta e passaram a focar em discursos culturais e den&uacute;ncias simb&oacute;licas, afastando-se assim das classes populares, incapazes de acompanhar tais discursos. Era o nascimento do &ldquo;politicamente correto&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu ver, este afasta os intelectuais do p&uacute;blico trabalhador, criando uma linguagem moralizadora e excludente, que refor&ccedil;a ressentimentos em vez de gerar alian&ccedil;as, e que &eacute; absolutamente inintelig&iacute;vel para as classes populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Corol&aacute;rio de tal estado de coisas, na perspectiva de Rorty, com o distanciamento da esquerda acad&ecirc;mica da classe trabalhadora, seria a ascens&atilde;o de populistas autorit&aacute;rios e ressentidos. Alguns veem sua an&aacute;lise como premonit&oacute;ria da ascens&atilde;o de Trump, e de populistas autorit&aacute;rios mais abaixo da linha do Equador. Um exemplo disso seria o Brasil, mas n&atilde;o entrarei em mais detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis&atilde;o de Rorty, o politicamente correto que, ora Prata denuncia, representaria um desvio de uma esquerda transformadora para uma esquerda perform&aacute;tica, centrada em linguagem, modos de falar (tipo, &ldquo;popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua&rdquo;) e identidades. <\/p>\n\n\n\n<p>Transpondo para o Brasil, enquanto a &ldquo;velha esquerda&rdquo; batalhava por sal&aacute;rio m&iacute;nimo, previd&ecirc;ncia, trabalho e reforma agr&aacute;ria, a &ldquo;nova esquerda&rdquo; , surgida a partir da d&eacute;cada de 1990, concentrou seu capital pol&iacute;tico em aspectos legais e simb&oacute;licos, como a utiliza&ccedil;&atilde;o de linguagem imparcial, cotas simb&oacute;licas em editais, leis contra a discrimina&ccedil;&atilde;o e exposi&ccedil;&atilde;o na m&iacute;dia. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo mantendo as pautas estruturais, uma parcela significativa da esquerda come&ccedil;ou a dar mais import&acirc;ncia ao discurso do que &agrave; mudan&ccedil;a efetiva nas institui&ccedil;&otilde;es. Talvez por isso os avan&ccedil;os da Pol&iacute;tica Nacional&nbsp;para a&nbsp;Popula&ccedil;&atilde;o em Situa&ccedil;&atilde;o de Rua, institu&iacute;da pelo Decreto n&ordm; 7.053 de 23 de dezembro de&nbsp;2009, tenham sido p&iacute;fios, como admite o Plano Nacional Ruas Vis&iacute;veis, de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>E a&iacute; reside o erro estrat&eacute;gico para Rorty (e talvez para Prata): &nbsp;justi&ccedil;a social exige reformas estruturais e n&atilde;o purifica&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica &mdash; e tais reformas estruturais exigem constru&ccedil;&atilde;o de maioria, coaliz&atilde;o e projeto de pa&iacute;s. Sem isso, a esquerda vira nicho acad&ecirc;mico ou militante, abrindo um flanco perigoso para a ascens&atilde;o de lideres messi&acirc;nicos de extrema direita. com suas promessas f&aacute;ceis.<\/p>\n\n\n\n<p>For&ccedil;oso &eacute; reconhecer que, no Brasil, um ex-presidente canalizou o sentimento de exclus&atilde;o simb&oacute;lica de parcelas da popula&ccedil;&atilde;o que se sentiram ridicularizadas, censuradas ou ignoradas por uma elite linguisticamente progressista . Essa elite falava uma l&iacute;ngua que elas n&atilde;o compreendiam (o politicamente correto) e que parecia lhes atribuir uma culpa e d&iacute;vida hist&oacute;ricas, inescap&aacute;veis e impag&aacute;veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluindo, que a fixa&ccedil;&atilde;o obsessiva em reformas vocabulares e sem&acirc;nticas n&atilde;o nos cegue a ponto de descurarmos da necessidade de reformas estruturais e de base para reverter a situa&ccedil;&atilde;o escandalosa dos deserdados da sorte, ora denominados &ldquo;popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua&rdquo;. <\/p>\n\n\n\n<div>\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-highlight-background-color has-background has-medium-font-size\">&#128073; <strong>E voc&ecirc;, o que pensa sobre isso?<\/strong> A linguagem que usamos ajuda a transformar a realidade ou apenas a maquiar nossa culpa? <strong>Compartilhe sua opini&atilde;o nos coment&aacute;rios, envie este post para quem precisa refletir sobre o tema<\/strong> e acompanhe o <em>Solidaritas<\/em> para mais debates urgentes sobre a vida nas ruas e o direito &agrave; cidade. <strong>A mudan&ccedil;a come&ccedil;a com escuta, palavra e a&ccedil;&atilde;o.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\"Beggar\" or \"homeless person\"? Debate exposes the clash between inclusive language, social stigmas and the risks of political correctness.<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":575,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-573","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contexto-caminhos","generate-columns","tablet-grid-50","mobile-grid-100","grid-parent","grid-33"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=573"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/573\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":585,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/573\/revisions\/585"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/575"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}