Jornalismo público sobre população em situação de rua e vulnerabilidade social

Uma adolescente no centro da resposta à crise habitacional no Reino Unido

23/01/2026
Escrito por Redação

Em meio ao crescimento recorde do número de famílias vivendo em acomodações temporárias no Reino Unido, uma campanha liderada por uma adolescente de 15 anos tem chamado a atenção de autoridades locais e da opinião pública. A iniciativa, criada por Scarlett Chapman, moradora de Hove, busca pressionar o poder público a identificar terrenos subutilizados e transformá-los em moradias permanentes para famílias em situação de rua. O movimento nasce de uma constatação simples, mas incômoda: a crise habitacional não decorre apenas da falta de recursos, mas também do uso ineficiente do solo urbano .

Segundo o relato, conselhos locais em todo o Reino Unido enfrentam dificuldades crescentes para dar conta do aumento no número de famílias vivendo em hotéis, abrigos ou outras formas de acomodação temporária. Esses arranjos, pensados como soluções emergenciais, tornaram-se permanentes para milhares de pessoas, especialmente famílias com crianças. É nesse contexto que Scarlett lança a campanha Mission: HOME, com o objetivo de mapear pequenos terrenos públicos ociosos — conhecidos como microsites — capazes de receber novas construções habitacionais.

A campanha começou em escala local, em Brighton e Hove, mas rapidamente ganhou visibilidade. O primeiro passo foi identificar quatro terrenos pertencentes ao conselho municipal que poderiam ser utilizados para novas moradias. A estratégia parte da ideia de que, em vez de buscar grandes áreas — frequentemente escassas ou caras —, é possível ampliar a oferta habitacional a partir de espaços menores, distribuídos pela cidade. Para Scarlett, essa abordagem não apenas é mais viável, como também ajuda a integrar novas moradias ao tecido urbano existente, evitando a concentração de pobreza.

A trajetória da adolescente até o ativismo social não é linear, mas revela um engajamento precoce. Antes de fundar a Mission: HOME, Scarlett já escrevia artigos de opinião sobre a crise habitacional em Brighton e Hove. Com o tempo, percebeu que a escrita não bastava. Decidiu, então, transformar a indignação em ação organizada. Ao mudar de escola, passou a se dedicar mais intensamente à campanha, envolvendo-se em ações de mobilização e arrecadação de recursos.

Um dos marcos dessa fase foi a iniciativa de cantar nas ruas para levantar fundos. A estratégia rendeu cerca de £1.000 (cerca de 7 mil reais), doados a instituições que atuam com pessoas em situação de rua. Mais do que o valor arrecadado, a ação teve efeito simbólico: chamou a atenção para o problema e aproximou a campanha de histórias concretas. Scarlett relata ter conversado com uma mãe vivendo em acomodação temporária, que lhe contou como o filho de 15 anos havia abandonado a escola para cuidar dos irmãos menores e da própria mãe. O relato reforçou a percepção de que a falta de moradia adequada produz efeitos em cascata, afetando educação, saúde e perspectivas de futuro.

Os números ajudam a dimensionar a gravidade do cenário local. Em Brighton e Hove, no sudeste da Inglaterra, cerca de 3.580 pessoas vivem atualmente sem moradia estável, o que equivale a uma em cada 77 pessoas. A cidade ocupa a 19ª posição no ranking inglês de pessoas dormindo nas ruas, com uma taxa de 30 por 100 mil habitantes, segundo dados citados no material. Esses indicadores colocam pressão adicional sobre os serviços públicos e expõem os limites das políticas baseadas exclusivamente em soluções temporárias.

A campanha liderada por Scarlett não se limita à denúncia. Um dos eixos centrais é a participação cidadã no planejamento urbano. A adolescente tem incentivado moradores a manifestarem apoio ao projeto antes da submissão formal ao conselho municipal, marcada para fevereiro. A ideia é demonstrar que há respaldo social para iniciativas que ampliem a oferta de moradia social, mesmo que em pequena escala. Para ela, a crise habitacional exige uma mudança de mentalidade: encarar o planejamento como processo coletivo e contínuo, e não como resposta emergencial a picos de demanda.

Scarlett enxerga sua iniciativa como um ponto de partida, não como solução definitiva. Em suas palavras, trata-se do “primeiro passo” de uma jornada que precisa ser assumida por toda a sociedade. Ela aposta que, ao tornar o debate mais acessível e concreto, a campanha pode inspirar projetos semelhantes em outras cidades do país. A expectativa é que o modelo dos microsites se dissemine, ampliando gradualmente a capacidade de resposta dos municípios.

Paralelamente ao ativismo, a jovem mantém interesses típicos da adolescência. Sonha em seguir carreira musical e já lançou canções em plataformas como o Spotify. Ainda assim, reconhece a tensão entre o desejo de estar no palco e a consciência de que sua voz, fora dele, pode ter impacto social relevante. Para Scarlett, ambos os caminhos se cruzam: usar a visibilidade — seja como cantora ou ativista — para ampliar a conscientização sobre a crise habitacional.

O caso ilustra como a crise da moradia no Reino Unido tem produzido novas formas de engajamento, inclusive entre os mais jovens. Ao deslocar o debate do campo abstrato das estatísticas para propostas concretas de uso do espaço urbano, a campanha Mission: HOME revela tanto a profundidade do problema quanto o potencial transformador da ação local. Em um cenário de políticas públicas pressionadas e soluções escassas, a iniciativa de uma adolescente expõe uma pergunta incômoda: se até mesmo estudantes conseguem identificar caminhos viáveis, o que falta para que eles sejam adotados em escala pelo poder público?


Fonte: Meet the 15-year-old girl leading a campaign to house homeless families / Big Issue #1671

Imagem gerada por IA

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