O ano de 2025 consolidou no Reino Unido um cenário que deixou de ser tratado como exceção: o avanço simultâneo da pobreza infantil e da falta de moradia entre famílias com crianças. Ao longo dos últimos meses, dados oficiais, reportagens e alertas de organizações sociais mostraram que um número crescente de crianças passou a viver em acomodações temporárias — hotéis baratos, abrigos emergenciais e soluções provisórias financiadas por governos locais.
O fenômeno não está restrito a famílias sem vínculo com o mercado de trabalho. Pelo contrário: muitas das crianças afetadas pertencem a lares com adultos empregados, mas incapazes de arcar com o custo da moradia em um mercado pressionado por aluguéis elevados e oferta insuficiente de habitação social. O resultado tem sido a permanência prolongada em alojamentos temporários, frequentemente inadequados para a vida familiar.
Ao longo do ano, conselhos municipais relataram dificuldades crescentes para cumprir suas obrigações legais de garantir moradia a famílias vulneráveis. O uso contínuo de hotéis e abrigos de emergência, inicialmente pensado como resposta pontual, tornou-se solução recorrente — e onerosa —, sem oferecer estabilidade às crianças afetadas.
A pobreza infantil, nesse contexto, deixou de ser apenas uma estatística de renda. Ela passou a se expressar em interrupções no percurso escolar, insegurança alimentar, dificuldades de acesso a serviços de saúde e impactos evidentes sobre o bem-estar emocional. Crianças vivendo em moradia temporária enfrentam rotinas instáveis, mudanças frequentes de endereço e afastamento de redes de apoio comunitário.
A retrospectiva de 2025 indica que o Reino Unido entrou em um ciclo de gestão da emergência, no qual respostas provisórias se acumulam sem reverter a tendência de fundo. O debate público passou a reconhecer que a combinação entre crise habitacional e pobreza infantil já não pode ser explicada por eventos isolados, mas por um modelo que falha em oferecer proteção efetiva às famílias com crianças.
O que se desenha é um alerta claro: quando a moradia temporária se torna permanente para milhares de crianças, a pobreza deixa de ser um desvio do sistema e passa a integrar seu funcionamento cotidiano — com consequências de longo prazo para a saúde, a educação e a coesão social.
Fonte: Big Issue, 27/12/2025 a 4/01/2026
Crédito da foto: André Kertész, Criança segurando um caozinho, 1928.
