{"id":1092,"date":"2025-12-11T09:51:07","date_gmt":"2025-12-11T12:51:07","guid":{"rendered":"https:\/\/solidaritas.blog\/?p=1092"},"modified":"2025-12-11T14:30:10","modified_gmt":"2025-12-11T17:30:10","slug":"hoje-eu-ando-cheiroso-limpo-com-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/hoje-eu-ando-cheiroso-limpo-com-identidade\/","title":{"rendered":"\u201cHoje eu ando cheiroso, limpo, com identidade\u201d"},"content":{"rendered":"<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n\n\n\n<p>&ldquo;Me chamo Kleidson Oliveira Beserra. Fiquei quase seis anos na rua, de 2005 a 2011.&rdquo; A apresenta&ccedil;&atilde;o parece simples, mas carrega uma virada profunda: por muito tempo, ele sequer era chamado pelo nome. &ldquo;Eu s&oacute; era chamado de Radiola. O Radiola era um cara insignificante. O Kleidson n&atilde;o.&rdquo; O apelido pejorativo vinha por conta de uma defici&ecirc;ncia em seu bra&ccedil;o, que lembrava, por seu posicionamento, o bra&ccedil;o de uma vitrola. <\/p>\n\n\n\n<p>A rua, diz ele, ensina. Ensina dureza. Ensina medo. Mas tamb&eacute;m revela gestos de humanidade inesperada. &ldquo;As pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m condi&ccedil;&atilde;o nenhuma, essas t&ecirc;m empatia. Ofertam mais do que possuem.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-base-2-color has-contrast-3-background-color has-text-color has-background has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3a072e0c3d660e0d479296fb2adc8dce\"><blockquote><p><strong>Durante quase seis anos, Kleidson viveu entre cal&ccedil;adas, marquises e sil&ecirc;ncios impostos. Da rua, trouxe marcas, mas tamb&eacute;m a ideia de que a solidariedade nasce onde menos se espera. Nesta conversa, ele reconstr&oacute;i sua trajet&oacute;ria com a pr&oacute;pria voz ; da vergonha ao acolhimento, do apelido que n&atilde;o escolheu &agrave; reconquista do nome.<\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A rua e o que ela ensinou<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>&ldquo;Ningu&eacute;m escolhe viver na rua&rdquo;, afirma. &ldquo;Mas um conjunto de escolhas erradas pode te levar ao fundo do po&ccedil;o.&rdquo; No per&iacute;odo em que viveu exposto, aprendeu a distinguir dois tipos de ajuda: a que vem de cora&ccedil;&atilde;o e a que vem com interesse. &ldquo;Tem a solidariedade industrializada, que vai para a rua esperando retorno. Isso dissipa a pol&iacute;tica p&uacute;blica.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Pela conviv&ecirc;ncia, percebeu que a escuta &eacute; o verdadeiro recurso transformador. &ldquo;As pessoas que mais ajudam s&atilde;o as que t&ecirc;m escuta qualificada.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O estigma e o nome recuperado<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mesmo precisando de cuidado, evitava buscar o Centro de Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial (CAPS) do pr&oacute;prio bairro: medo do r&oacute;tulo. &ldquo;Diziam que l&aacute; era lugar de doido, de drogado.&rdquo; Procurou atendimento longe de casa e encontrou o oposto do estigma: acolhimento. &ldquo;Fiquei 30 dias sem usar subst&acirc;ncia. Isso me deu for&ccedil;a.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dali, come&ccedil;ou a substituir o v&iacute;cio por outra coisa: &ldquo;liberdade&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O encontro que virou recome&ccedil;o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No meio do desamparo, encontrou tamb&eacute;m sua companheira, Brenda, uma jovem mulher marcada por viol&ecirc;ncia e desesperan&ccedil;a. &ldquo;Eu estava num suic&iacute;dio lento. Ela tamb&eacute;m.&rdquo; A rela&ccedil;&atilde;o surgiu como pacto de sobreviv&ecirc;ncia m&uacute;tua. &ldquo;Cuidar de algu&eacute;m foi a melhor coisa que aconteceu comigo.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois se fortaleceram na rua e decidiram, juntos, sair dela. &ldquo;Eu n&atilde;o queria que ela passasse pelo que eu passei. Resolvi dar um teto para ela.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a vida inclui filhos e rotina com cheiro de pertencimento. &ldquo;Eu ando cheiroso, arrumado, limpo. Tenho identidade. Sou refer&ecirc;ncia.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, Kleidson &eacute; articulador da Escola Nacional PopRua, uma iniciativa do N&uacute;cleo de Popula&ccedil;&otilde;es em Situa&ccedil;&atilde;o de Vulnerabilidade e Sa&uacute;de Mental na Aten&ccedil;&atilde;o B&aacute;sica (NUPOP\/Fiocruz) <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quando o cuidado funciona<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O acolhimento vivido na sa&uacute;de mental marcou sua percep&ccedil;&atilde;o sobre mudan&ccedil;a. &ldquo;O indiv&iacute;duo tem que querer. N&atilde;o existe milagre. Mas a rede de apoio sustenta o processo.&rdquo; A decis&atilde;o de sair exigiu motivos fortes. &ldquo;Um dos fatores importantes foi a fam&iacute;lia. Outro, proteger algu&eacute;m.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>As rodas de conversa do CAPS tamb&eacute;m deixaram impress&otilde;es. &ldquo;Sempre tem algu&eacute;m que defende o SUS, defende a Rede de Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial (RAPS). Isso emociona, porque reconhece profissionais que realmente ajudam.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Outras mem&oacute;rias que n&atilde;o se perdem<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Entre epis&oacute;dios marcantes, Kleidson lembra o dia em que salvou uma menina do afogamento no Esp&iacute;rito Santo. &ldquo;Segurei pelo peito, senti o cora&ccedil;&atilde;o dela batendo forte e r&aacute;pido.&rdquo; Pensa nela at&eacute; hoje, imaginando quem pode ter se tornado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que pol&iacute;ticas p&uacute;blicas falham<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Kleidson tem diagn&oacute;stico preciso da pol&iacute;tica para a PopRua: falta continuidade, escuta e presen&ccedil;a de quem viveu a rua. &ldquo;D&atilde;o uma marmita e abandonam o cara. N&atilde;o tem acompanhamento.&rdquo; O problema, diz, se agrava quando organiza&ccedil;&otilde;es terceirizadas operam sem participa&ccedil;&atilde;o de egressos. &ldquo;Contratam pessoas de fora que n&atilde;o t&ecirc;m empatia. A pol&iacute;tica n&atilde;o &eacute; efetiva.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa viv&ecirc;ncia, criou, com sua esposa e outros companheiros, o <strong>Instituto Pop Rua Brasil<\/strong>. &ldquo;Primeira institui&ccedil;&atilde;o criada por indiv&iacute;duos nascidos na rua. Tudo veio da viv&ecirc;ncia. Agora &eacute; aguardar o CNPJ para come&ccedil;ar a atuar.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>E agora?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>&ldquo;Hoje eu vejo mais as coisas do que antes&rdquo;, diz. Ao olhar para os pr&oacute;prios filhos (tr&ecirc;s), redescobre raz&otilde;es para continuar. &ldquo;Eu acordo, dou beijo no meu pequenininho (Mateus, na foto com ele). A vida &eacute; muito boa.&rdquo;<br><\/p>\n\n\n\n<p>A luta agora &eacute; coletiva: a defesa dos direitos da popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua e o fortalecimento de pol&iacute;ticas completas, n&atilde;o fragmentadas. &ldquo;A gente continua. A gente n&atilde;o desiste.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nota &eacute;tica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Esta reportagem se baseia integralmente no depoimento concedido por Kleidson Oliveira. O <em>Solidaritas<\/em> adota pr&aacute;ticas de escuta qualificada, respeito &agrave; autonomia narrativa e compromisso expl&iacute;cito de n&atilde;o reproduzir estigmas associados &agrave; popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relato de Kleidson, egresso da rua, sobre solidariedade, acolhimento no CAPS e a cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Pop Rua Brasil para transformar vidas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1093,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-1092","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vozes-da-rua","generate-columns","tablet-grid-50","mobile-grid-100","grid-parent","grid-33"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1092"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1100,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092\/revisions\/1100"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}