{"id":250,"date":"2025-05-06T13:28:41","date_gmt":"2025-05-06T13:28:41","guid":{"rendered":"https:\/\/solidaritas.blog\/?p=250"},"modified":"2025-06-20T15:16:56","modified_gmt":"2025-06-20T18:16:56","slug":"veiculos-contra-a-invisibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/veiculos-contra-a-invisibilidade\/","title":{"rendered":"Ve\u00edculos na luta contra a invisibilidade"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Nas metr&oacute;poles globais, cada pra&ccedil;a renovada, cada museu reluzente e cada fachada renovada frequentemente oculta mais do que revela. Al&eacute;m do concreto liso e da est&eacute;tica controlada, h&aacute; um projeto urbano que determina quem merece o espa&ccedil;o e quem deve ser varrido do panorama visual. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas, e se a arte tivesse a capacidade de fazer o contr&aacute;rio? Tornar evidente o que a cidade procura ocultar? &Eacute; exatamente isso que o artista e designer polon&ecirc;s Krzysztof Wodiczko realiza com seus &ldquo;ve&iacute;culos cr&iacute;ticos&rdquo;, particularmente o Homeless Vehicle Project (numa tradu&ccedil;&atilde;o livre, Projeto Ve&iacute;culo para Pessoas em Situa&ccedil;&atilde;o de Rua).<\/p>\n\n\n\n<p>Wodiczko &eacute; um artista incomum. Ele nasceu em 1943, cruzou fronteiras e regimes, residiu na Pol&ocirc;nia, Fran&ccedil;a, Canad&aacute; e Estados Unidos, e se descreve como um n&ocirc;made. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, um viajante atento: &ldquo;Eles precisam ter um bom conhecimento do terreno em que se encontram.&rdquo; &ldquo;Muitas vezes melhor do que os residentes locais&rdquo;, declara, referindo-se aos deslocados no espa&ccedil;o urbano.<\/p>\n\n\n\n<div>\n<p class=\"has-text-align-center has-highlight-background-color has-background has-medium-font-size\">O artista Krzysztof Wodiczko e a transforma&ccedil;&atilde;o do ambiente urbano sob a perspectiva dos sem-abrigo.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Wodiczko, desde a d&eacute;cada de 1980, se dedica &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de interven&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas no ambiente urbano, dando voz a quem foi silenciado: migrantes, indiv&iacute;duos em situa&ccedil;&atilde;o de rua, refugiados. Ao inv&eacute;s de pinturas em museus, ele utiliza est&aacute;tuas, fachadas de edif&iacute;cios e at&eacute; carrinhos como meios de provocar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O munic&iacute;pio como vitrine<\/h2>\n\n\n\n<p>O artista inicia sua cr&iacute;tica ao que denomina &ldquo;pensamento &uacute;nico urbano&rdquo;: uma cidade projetada para atrair investidores, n&atilde;o para seus moradores. De acordo com pesquisadores como David Harvey, Saskia Sassen e Manuel Castells, a cidade global se transformou em um palco para fluxos econ&ocirc;micos e consumo, onde os menos favorecidos se transformam em &ldquo;ru&iacute;do urbano&rdquo;. Neste cen&aacute;rio, frequentemente a arte &eacute; empregada para maquiar e promover a paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, n&atilde;o se aplica ao caso de Wodiczko.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&ldquo;Teatro arquitet&ocirc;nico &eacute;pico&rdquo;<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante a d&eacute;cada de 1980, o artista come&ccedil;ou a projetar imagens grandiosas em pr&eacute;dios p&uacute;blicos em meio a uma intensa agita&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. A proje&ccedil;&atilde;o de uma su&aacute;stica na Casa da &Aacute;frica do Sul em Londres, durante manifesta&ccedil;&otilde;es contra o apartheid, &eacute; um dos exemplos mais lembrados. Trata-se do que ele denomina de &ldquo;ataque simb&oacute;lico&rdquo;: a fachada silenciosa &eacute; utilizada para revelar a hist&oacute;ria que o edif&iacute;cio tenta ocultar.<\/p>\n\n\n\n<p>O gesto, al&eacute;m de provocar, tem um car&aacute;ter pedag&oacute;gico. Segundo o fil&oacute;sofo Walter Benjamin, toda obra de arte &eacute; simultaneamente um registro da barb&aacute;rie.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1986, na cidade de Nova Iorque, o artista avan&ccedil;ou. Durante as reformas que prometiam a &ldquo;revitaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; da Union Square ((A Union Square &eacute; uma pra&ccedil;a famosa no sul de Manhattan, em Nova Iorque, conhecida por ser ponto de encontros, protestos, feiras e manifesta&ccedil;&otilde;es culturais. &Eacute; um espa&ccedil;o p&uacute;blico hist&oacute;rico, cercado por lojas, esta&ccedil;&otilde;es de metr&ocirc; e muito movimento urbano.)), ele projetou fotografias de indiv&iacute;duos em situa&ccedil;&atilde;o de rua sobre est&aacute;tuas de Abraham Lincoln, George Washington e Lafayette. A cidade desejava ocultar os sem-teto. Wodiczko os colocou em uma posi&ccedil;&atilde;o de destaque.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosalyn Deutsche, uma cr&iacute;tica de arte urbana, considerou o trabalho como uma resposta direta &agrave; arquitetura da exclus&atilde;o. N&atilde;o se limitava a criticar. O objetivo era restaurar a fun&ccedil;&atilde;o primordial do espa&ccedil;o p&uacute;blico: ser um local de conflito, presen&ccedil;a e express&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile is-vertically-aligned-top\" style=\"grid-template-columns:33% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"830\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch-830x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-679 size-full\" srcset=\"https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch-830x1024.jpg 830w, https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch-243x300.jpg 243w, https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch-768x947.jpg 768w, https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch-10x12.jpg 10w, https:\/\/solidaritas.blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Soldier-and-Sailors-Memorial-Arch.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 830px) 100vw, 830px\"\/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-left has-highlight-background-color has-background has-small-font-size\">Em 1984, durante as celebra&ccedil;&otilde;es de Ano Novo no Grand Army Plaza, Brooklyn, o artista Krzysztof Wodiczko projetou na Soldiers and Sailors Memorial Arch a imagem de dois m&iacute;sseis &mdash; um americano e um sovi&eacute;tico &mdash; ligados por uma corrente com cadeado, em alus&atilde;o &agrave;s negocia&ccedil;&otilde;es de redu&ccedil;&atilde;o de armamentos entre EUA e URSS. A proje&ccedil;&atilde;o dialogava com a arquitetura do pr&oacute;prio monumento, que glorifica o ex&eacute;rcito do Norte na Guerra Civil, mas tamb&eacute;m abriga esculturas realistas de soldados exaustos voltando da guerra, criando um raro debate interno no monumento. O p&uacute;blico interpretou livremente os s&iacute;mbolos, relacionando-os com o contexto pol&iacute;tico da &eacute;poca, o que transformou temporariamente o monumento em um espa&ccedil;o vivo de reflex&atilde;o coletiva.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Homeless Vehicle Project<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1988, Wodiczko apresentou seu trabalho mais impactante: o Homeless Vehicle Project. Parecia um simples projeto de arquitetura urbana, mas era uma cr&iacute;tica &agrave; cidade eficiente. Um carrinho cuidadosamente projetado que inclu&iacute;a abrigo, local para armazenar res&iacute;duos, compartimento para higiene pessoal e um espa&ccedil;o para dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>Visualmente, assemelhava-se a um carrinho de compras e uma m&aacute;quina b&eacute;lica. Inspirado na Bauhaus, n&atilde;o se tratava meramente de uma escultura: era um instrumento de sobreviv&ecirc;ncia e um canal de comunica&ccedil;&atilde;o. O carro era mostrado em exposi&ccedil;&otilde;es do tipo bienais, mas tamb&eacute;m experimentado nas ruas com a popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m de proporcionar abrigo, o carrinho tamb&eacute;m estimulava conversas. As pessoas se aproximavam, curiosas sobre o assunto. E os sem-teto falavam. Eles se tornavam percept&iacute;veis. Pediam aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Combatendo o desaparecimento urbano<\/h2>\n\n\n\n<p>As metr&oacute;poles promovidas como globais, com seus vastos parques, museus financiados por institui&ccedil;&otilde;es financeiras e centros culturais constru&iacute;dos por construtoras, tamb&eacute;m s&atilde;o locais de exclus&atilde;o. Quem n&atilde;o compra, n&atilde;o existe. Os &ldquo;indesejados&rdquo; s&atilde;o removidos das imagens dos folhetos tur&iacute;sticos e dos planos de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o Homeless Vehicle Project &eacute; uma obra de arte engajada no cerne do capitalismo contempor&acirc;neo. Uma arte que vai al&eacute;m do &ldquo;belo&rdquo;, buscando o &ldquo;vis&iacute;vel&rdquo;. Que beleza possui o abandono?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A arte tem o potencial de ser um direito<\/h2>\n\n\n\n<p>A obra de Wodiczko tamb&eacute;m esclarece a quest&atilde;o que muitos questionam: arte para quem? Ele devolve &agrave;s pessoas marginalizadas a ag&ecirc;ncia simb&oacute;lica que o urbanismo elitista tenta apagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Na perspectiva do artista, seus &ldquo;ve&iacute;culos&rdquo; s&atilde;o meramente instrumentos de mudan&ccedil;a. A meta &eacute; que, no futuro, ningu&eacute;m necessite deles. Contudo, at&eacute; l&aacute;, devemos lutar contra a arquitetura utilizando as armas da imagem, da palavra e da presen&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quais li&ccedil;&otilde;es tiramos da obra de Wodiczko?<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"gb-element-9163ead3\">\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Que a cidade n&atilde;o &eacute; imparcial: &eacute; um espa&ccedil;o de conflito de significados.<\/li>\n\n\n\n<li>Que a arte tem o poder e a responsabilidade de questionar quem possui direito ao espa&ccedil;o urbano.<\/li>\n\n\n\n<li>Divulgar &eacute; o primeiro passo para o reconhecimento de direitos.<\/li>\n\n\n\n<li>Que a proje&ccedil;&atilde;o de uma imagem em um edif&iacute;cio tem o poder de transformar mais do que qualquer outdoor de propaganda.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solidaritas<\/strong> sustenta que o acesso aos direitos tamb&eacute;m pode ser realizado por meio de imagens, provoca&ccedil;&otilde;es e discurso cr&iacute;tico. &Eacute; imposs&iacute;vel pensar em cidadania sem enfrentar os locais onde ela &eacute; constantemente negada.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a cidade persistir em fingir que a popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua n&atilde;o existe, que venham mais carros. Esperamos por mais proje&ccedil;&otilde;es. Esperamos por mais arte com voz.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n\n\n\n<p>Legenda da foto: O Homeless Vehicle Project de Krzysztof Wodiczko: arte cr&iacute;tica em movimento pelas vias de Nova York. Uma provoca&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade que busca ocultar quem mais necessita de visibilidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n\n\n\n<p>Para saber mais, leia artigo de minha autoria: <a href=\"https:\/\/medium.com\/textos-selecionados\/%C3%A9-possivel-uma-arte-engajada-no-capitalismo-tardio-os-ve%C3%ADculos-cr%C3%ADticos-de-krzysztof-wodiczko-6f037603485f\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">&Eacute; possivel uma arte engajada no capitalismo tardio? Os &lsquo;ve&iacute;culos cr&iacute;ticos&rsquo; de Krzysztof Wodiczko<\/a> \/ Medium<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arte cr&iacute;tica contra a exclus&atilde;o: Wodiczko denuncia o apagamento da popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua  nas cidades globais com ve&iacute;culos e proje&ccedil;&otilde;es que tornam vis&iacute;vel o invis&iacute;vel.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":252,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-250","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-iniciativas-que-inspiram","generate-columns","tablet-grid-50","mobile-grid-100","grid-parent","grid-33"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=250"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":682,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions\/682"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}