{"id":262,"date":"2025-05-06T13:58:18","date_gmt":"2025-05-06T13:58:18","guid":{"rendered":"https:\/\/solidaritas.blog\/?p=262"},"modified":"2025-05-19T18:07:07","modified_gmt":"2025-05-19T21:07:07","slug":"arquitetura-hostil-no-brasil-a-lei-padre-julio-lancelotti-e-o-fim-dos-pinos-antidesabrigados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/arquitetura-hostil-no-brasil-a-lei-padre-julio-lancelotti-e-o-fim-dos-pinos-antidesabrigados\/","title":{"rendered":"&#8220;Arquitetura hostil&#8221; e a Lei Padre J\u00falio Lancelotti"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Arquitetura hostil&rdquo;, tamb&eacute;m conhecida como design urbano defensivo, refere-se ao emprego de componentes construtivos para orientar ou reprimir determinados comportamentos em &aacute;reas p&uacute;blicas. Este tipo de projeto, ao inv&eacute;s de simplesmente disponibilizar bancos, cal&ccedil;adas ou pra&ccedil;as confort&aacute;veis, inclui estruturas que tornam desconfort&aacute;vel ou at&eacute; mesmo invi&aacute;vel sentar, deitar ou simplesmente permanecer no local. A pr&aacute;tica tem como alvo principal aqueles que mais necessitam do espa&ccedil;o p&uacute;blico: pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de rua, jovens, idosos e indiv&iacute;duos com defici&ecirc;ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em v&aacute;rias cidades do Brasil, observamos assentos com barras no meio (impedindo deitar-se), suportes met&aacute;licos em degraus e pedras sob pontes e viadutos. A raz&atilde;o oficial &eacute; &ldquo;evitar atos de vandalismo&rdquo; ou &ldquo;evitar condutas impr&oacute;prias&rdquo;. No entanto, na realidade, essas medidas direcionam moradores de rua para esquinas e cal&ccedil;adas menos vis&iacute;veis, gerando uma cidade de fachadas e exclus&atilde;o. Esta arquitetura intensifica a segrega&ccedil;&atilde;o socioespacial e complica o direito de mobilidade de quem n&atilde;o possui um lar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A manifesta&ccedil;&atilde;o do Padre J&uacute;lio Lancellotti<\/h2>\n\n\n\n<p>No ano de 2021, sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, na zona leste de S&atilde;o Paulo, a administra&ccedil;&atilde;o municipal implementou pedras afiadas para evitar a instala&ccedil;&atilde;o de pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de rua. Padre Julio Lancellotti, respons&aacute;vel pela Pastoral do Povo de Rua, respondeu com uma marreta: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/G76tnz1eEqQ?si=6HDlR2WrGBkTTvFL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">demoliu a barreira p&uacute;blica<\/a> como um gesto simb&oacute;lico de den&uacute;ncia. A imagem se tornou viral e destacou que a cidade n&atilde;o &eacute; imparcial &ndash; pode excluir ou acolher, conforme o projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Motivado por a&ccedil;&otilde;es como a do padre Lancellotti, em 2021, o senador Fabiano Contarato prop&ocirc;s o Projeto de Lei no 488\/2021, que modificava o Estatuto da Cidade (<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/leis_2001\/l10257.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">Lei 10.257\/2001<\/a>) para vedar m&eacute;todos de arquitetura agressiva em locais p&uacute;blicos. A C&acirc;mara dos Deputados aprovou, e a <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2022\/lei\/l14489.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">Lei 14.489\/2022<\/a>, oficialmente conhecida como Lei Padre Julio Lancellotti, foi promulgada em 21 de dezembro de 2022, sendo vetada por Jair Bolsonaro e posteriormente restaurada pelo Congresso Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; inequ&iacute;voca: &ldquo;&eacute; proibido o uso de materiais, estruturas, equipamentos e m&eacute;todos construtivos nocivos em &aacute;reas de uso p&uacute;blico&rdquo;. Est&atilde;o proibidos dispositivos como pinos, bancos obstru&iacute;dos e pisos propositalmente irregulares. O documento tamb&eacute;m estabelece que a cidade deve proporcionar conforto, acolhimento e qualidade de vida a todos, particularmente aos grupos mais vulner&aacute;veis, tais como crian&ccedil;as, idosos e pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2023, o governo federal emitiu um decreto regulamentando essa lei, definindo diretrizes para entidades federais e projetos financiados pelo governo federal. O decreto reitera a proibi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;m&eacute;todos construtivos agressivos&rdquo; e instrui os administradores municipais a incluir disposi&ccedil;&otilde;es de acessibilidade e &ldquo;ambientes receptivos&rdquo; em seus projetos de urbanismo. O decreto tamb&eacute;m estabelece a forma&ccedil;&atilde;o de equipes de planejamento urbano para detectar e erradicar pr&aacute;ticas prejudiciais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Efeito na vida dos indiv&iacute;duos<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao proibir a arquitetura hostil, a legisla&ccedil;&atilde;o estabelece padr&otilde;es m&iacute;nimos de conforto: assentos sem barreiras, cal&ccedil;adas niveladas e espa&ccedil;os para descanso. Para aqueles que residem nas ruas, isso representa a possibilidade de dormir com menos perigos &mdash; em marquises, pra&ccedil;as e at&eacute; em paradas de &ocirc;nibus. Para passageiros, assegura assentos acess&iacute;veis. E, para todos, &eacute; importante lembrar que a cidade &eacute; de todos, n&atilde;o apenas de investidores ou turistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a legisla&ccedil;&atilde;o ser federal, a cria&ccedil;&atilde;o de projetos urbanos &eacute; responsabilidade dos munic&iacute;pios. &Eacute; responsabilidade de cada cidade incluir a proibi&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicas agressivas em seus c&oacute;digos de obras e posturas. J&aacute; foram anunciadas revis&otilde;es no mobili&aacute;rio urbano em algumas cidades-piloto, como Bel&eacute;m e Recife. Na cidade de S&atilde;o Paulo, especialistas da Secretaria Municipal das Subprefeituras supervisionam reclama&ccedil;&otilde;es e eliminam pinos e estruturas interditadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dificuldades na fiscaliza&ccedil;&atilde;o<\/h2>\n\n\n\n<p>A implementa&ccedil;&atilde;o nem sempre &eacute; instant&acirc;nea. Frequentemente, comerciantes independentes colocam pinos em degraus de edif&iacute;cios hist&oacute;ricos ou sob marquises. A legisla&ccedil;&atilde;o determina que entidades de supervis&atilde;o urbana, tais como as guardas municipais, atuem de forma volunt&aacute;ria ou acatem den&uacute;ncias. Contudo, diversos munic&iacute;pios carecem de equipes e recursos financeiros para inspecionar cada esquina.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, iniciativas de design urbano inclusivo se destacam. Em Curitiba, est&atilde;o sendo experimentados bancos com encostos aconchegantes e formas sinuosas. No Rio de Janeiro, o IAB-RJ promoveu uma competi&ccedil;&atilde;o para a cria&ccedil;&atilde;o de prot&oacute;tipos de mobili&aacute;rio p&uacute;blico projetado para todos os corpos, sem distin&ccedil;&atilde;o de qualquer natureza. Essas a&ccedil;&otilde;es demonstram que &eacute; vi&aacute;vel combinar seguran&ccedil;a com conforto.<\/p>\n\n\n\n<p>No Art. 6&ordm;, a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal assegura o direito &agrave; habita&ccedil;&atilde;o e ao bem-estar social. Se os espa&ccedil;os p&uacute;blicos devem ser acess&iacute;veis a todos, cabe aos arquitetos e urbanistas a obriga&ccedil;&atilde;o &eacute;tica de criar cidades que se adaptem aos corpos e aos h&aacute;bitos de cada indiv&iacute;duo. A Lei Padre J&uacute;lio Lancellotti enfatiza que o ambiente urbano n&atilde;o &eacute; imparcial &mdash; pode promover a coexist&ecirc;ncia ou legitimar a exclus&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Habitantes, ativistas e estudiosos podem contribuir para a aplica&ccedil;&atilde;o da lei atrav&eacute;s de den&uacute;ncias, propostas de aprimoramento e participa&ccedil;&atilde;o em audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas. Surgiram aplicativos de mapeamento colaborativo para documentar &aacute;reas de arquitetura hostil, possibilitando que administradores identifiquem e resolvam &aacute;reas problem&aacute;ticas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para onde vamos<\/h2>\n\n\n\n<p>A proibi&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos agressivos de constru&ccedil;&atilde;o &eacute; apenas o come&ccedil;o. Precisamos alterar mentalidades e reconhecer a cidade como um bem coletivo. As cidades podem estabelecer selos de &ldquo;urbanismo receptivo&rdquo; para empreendimentos p&uacute;blicos e privados. Iniciativas de educa&ccedil;&atilde;o urbana em escolas e Centros de Refer&ecirc;ncia de Assist&ecirc;ncia Social contribuem para a forma&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os cientes de seus direitos e responsabilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei Padre Julio Lancellotti &eacute; um divisor de &aacute;guas na luta por um espa&ccedil;o p&uacute;blico receptivo e acolhedor. Ao evitar pr&aacute;ticas de exclus&atilde;o arquitet&ocirc;nica, ela pavimenta o caminho para cidades mais democr&aacute;ticas, onde todos, independentemente de terem moradia ou n&atilde;o, possam exercer sua cidadania. &Eacute; hora de remover os pinos, nivelar as cal&ccedil;adas e construir bancos de todos os tipos. Afinal, a cidade pertence a quem a habita e aspira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arquitetura hostil usa o design urbano para excluir pessoas vulner&aacute;veis do espa&ccedil;o p&uacute;blico. Lei Padre Lancellotti pro&iacute;be essa pr&aacute;tica no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":421,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-262","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","generate-columns","tablet-grid-50","mobile-grid-100","grid-parent","grid-33"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=262"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":564,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions\/564"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/solidaritas.blog\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}